Perdi o histórico na corretora: como reconstruir o custo médio antes de declarar

Chega março, você abre o programa da Receita e descobre que não sabe quanto pagou nas suas ações. A corretora antiga foi incorporada, a conta foi encerrada, ou você trocou de corretora e a nova só mostra a posição transferida, sem o preço. O extrato que sobrou tem buracos, e às vezes mostra uma venda maior do que tudo que você comprou.
A boa notícia é que, para ações e FIIs negociados na B3, o histórico quase nunca se perdeu de verdade. Ele só está espalhado. Este guia mostra onde buscar, o que a Receita pede e onde a reconstrução costuma dar errado.
Importante: este texto não é orientação jurídica nem tributária. O CaixaUnica não é corretora e não substitui o programa da Receita. Ele lê os relatórios que você baixa, reconstrói posição e custo médio, e entrega os números para você conferir. Em caso de dúvida sobre o seu caso, fale com um contador.
O que a Receita quer saber
Na ficha Bens e Direitos, ação e cota de FII entram pelo custo de aquisição, não pelo valor de mercado. A lei que rege a declaração manda declarar os bens pelos valores de aquisição. Se você comprou por R$ 1.000 e hoje vale R$ 3.000, declara R$ 1.000.
Quando há várias compras do mesmo ativo, o custo não é o da última compra nem o da primeira. A norma da Receita para renda variável manda calcular o custo pela média ponderada dos custos unitários, ou seja, o preço médio. Se você quer a conta passo a passo, ela está em como calcular o preço médio de ações.
Esse mesmo custo médio é o que define o lucro quando você vende. A regra admite deduzir os custos e despesas necessários à operação, e é aí que entram corretagem e taxas da bolsa. Errar o custo médio, portanto, erra duas coisas ao mesmo tempo: o valor em Bens e Direitos e o imposto sobre a venda, que explicamos em DARF na venda de ações e a isenção de R$ 20 mil.
Onde o histórico realmente está
Antes de qualquer planilha, vale procurar nesta ordem:
- A sua declaração do ano anterior. Se você já declarou o ativo, o custo de 31/12 do ano passado está lá. É o ponto de partida mais confiável, e daí em diante você só precisa das operações do último ano.
- A Área do Investidor da B3. A B3 registra as operações feitas em qualquer corretora brasileira, então trocar de corretora não apaga o histórico dela. Ali estão os relatórios de Movimentação e de Negociação.
- As notas de corretagem. Mesmo de uma corretora que já não existe, elas costumam estar no seu e-mail. Trazem preço, quantidade e as taxas de cada operação.
- Os informes de rendimentos antigos da corretora, que às vezes trazem o custo da posição em 31/12.
Montando a posição a partir da B3
O CaixaUnica importa os dois relatórios da Área do Investidor. A Movimentação traz a vida do ativo na custódia: compras, vendas, proventos, bonificações e desdobramentos. A Negociação traz as ordens executadas no pregão, com o preço de cada uma, e refina o preço médio de quem opera várias vezes no mesmo dia. Quando a mesma operação aparece nos dois relatórios, ela é contada uma vez só, com preferência para a movimentação.
O portal deixa exportar até 12 meses por vez, então para reconstruir anos de histórico você baixa um período de cada vez e importa todos. Subir de novo o mesmo arquivo não duplica nada. O passo a passo está em como exportar Movimentação e Negociação da B3.
Com tudo importado, a carteira mostra cada ativo com quantidade, custo médio e o histórico de movimentações, para você bater contra a corretora.
O desdobramento que faz a posição parecer vendida
Esse é o erro mais confuso. Quando uma empresa desdobra as ações, quem tinha 100 passa a ter 200, e o preço de cada uma cai pela metade. Se o extrato não traz esse evento, a conta de compras menos vendas fica errada: você vendeu 200 ações, mas só "comprou" 100, e o ativo aparece como vendido, ou com a quantidade errada.
Para ações vindas da B3 e da Avenue, o CaixaUnica consulta o histórico de desdobramentos de cada ativo e insere o evento que faltou, na data certa, com a quantidade proporcional ao que você tinha e custo zero, para o preço médio se dividir corretamente. Se depois você importar um relatório de movimentação que já traz o desdobramento ou a bonificação oficial, o lançamento automático é removido, para não contar o evento duas vezes.
Dois limites para ter em mente. O grupamento, quando a quantidade diminui, não é aplicado automaticamente. E é uma correção de melhor esforço: confira a quantidade final contra o extrato de custódia da B3 antes de declarar.
Bonificação tem custo, e a empresa diz qual
Na bonificação em ações, a regra da Receita é que o custo das ações recebidas é o valor do lucro ou reserva capitalizado que corresponde a você. Na prática, a empresa publica esse valor por ação no comunicado ao mercado. Por isso, quando houver bonificação no seu histórico, vale abrir o comunicado da empresa e conferir se o custo médio que você vai declarar reflete o valor atribuído.
A sobra fracionária que não fecha
Depois de desdobramentos, bonificações e leilões de fração, é comum sobrar algo como 0,4 ação de um ativo que você já vendeu inteiro. Essa fração não existe na sua custódia, mas fica na conta.
Na página do ativo, o botão Encerrar posição resolve isso com um ajuste neutro: nenhum lucro ou prejuízo é registrado, então não aparece venda fantasma no seu imposto. O ajuste só vale para sobras menores que uma ação, em ativos da B3 ou importados por planilha, e dá para desfazer apagando o lançamento em Transações.
Venda sem compra conhecida não vira lucro inventado
Se o histórico começa no meio, pode aparecer uma venda sem nenhuma compra registrada antes. O CaixaUnica não trata essa venda como lucro integral, o que inflaria o seu ganho. Ela fica de fora da conta de lucro realizado até você completar o histórico. É o sinal de que falta alguma compra, e não de que você ganhou dinheiro.
Quando a compra não está em lugar nenhum
Para operações que a B3 não tem, como compras muito antigas, você pode montar uma planilha própria e importar na carteira. O formato tem seis colunas: data, ativo, tipo de movimentação (compra, venda, dividendos, impostos), quantidade, preço e total, com a data no formato ano-mês-dia. O arquivo pode ser CSV ou Excel. Só use números que você consegue comprovar, com nota de corretagem, declaração antiga ou informe.
E se não há comprovação nenhuma? Aí não invente. A norma da Receita traz critérios para casos específicos em que não houve valor pago, como herança e transferência, mas não um atalho geral para compra esquecida. Esse é o momento de levar o caso a um contador antes de declarar.
O caminho, em cinco passos
- Junte o que existe: declaração anterior, notas de corretagem, informes.
- Exporte da B3 a Movimentação e a Negociação, um período de cada vez.
- Importe tudo no CaixaUnica e complete por planilha o que a B3 não tem.
- Confira a carteira: quantidades contra a custódia, desdobramentos aplicados, bonificações e sobras fracionárias.
- Declare com os números conferidos, usando o código certo de cada bem, que está em códigos de Bens e Direitos no IRPF.
Escopo
O CaixaUnica reconstrói posição e custo médio a partir dos seus relatórios e organiza os números de investimentos da declaração. Ele não preenche nem transmite a declaração, não recupera operações que não estão em nenhum arquivo e não substitui o programa da Receita nem o seu contador.
Veja como fica o IR dos seus investimentos em Declarar meus investimentos, ou crie sua conta e importe o primeiro relatório da B3.
Fontes
- Lei 9.250/1995, art. 25: determina que os bens e direitos sejam declarados pelos valores de aquisição.
- Instrução Normativa RFB 1.585/2015: art. 56, § 3º (dedução dos custos e despesas necessários à operação no ganho líquido); art. 58 (custo pela média ponderada dos custos unitários, custo de ações bonificadas pelo valor do lucro ou reserva capitalizado, e critérios para ausência de valor pago).
- Como exportar Movimentação e Negociação da B3: o passo a passo da exportação na Área do Investidor.